Brasileiros
no Líbano
Quibe com farofa
Nesta pequena cidade libanesa se come
arroz e feijão, se ouve pagode e se fala português. Lucy é o lugar de onde
saíram muitos libaneses que vieram tentar a vida no Brasil e que voltam para
casa levando na bagagem, além de muito dinheiro, um
país inteiro.
Por Bettina Barros. Fotos: Stephen Wallace
Lucy é um vilarejo escondido no mapa do Líbano, cravado entre montanhas e rodeado pelos campos verdes do Vale do Beka, já perto da fronteira com a Síria. Aqui nasceu Ghada Alwan, 23 anos, que mesmo sem nunca ter saído de casa, sente-se estrangeira. "Não parece que eu estou no Líbano, é como se estivesse fazendo intercâmbio em outro país", diz. Não é exagero: até pouco tempo, Ghada, que é formada em Letras, não conseguia acompanhar nem a conversa das amigas, que assim que se juntavam insistiam em falar uma língua estranha aos seus ouvidos.

"Há muita gente aqui que mal sabe falar árabe. Eu
tive que aprender língua e costumes novos para me integrar à sociedade",
explica. Ghada não teve outra alternativa a não ser estudar
português.
Espécie de território brasileiro em solo libanês, Lucy tem
cerca de mil habitantes, dos quais 90% passaram a maior parte da vida no Brasil.
A invasão pacífica começou no fim dos anos 80, com o enfraquecimento da guerra
civil que por anos tomou conta do Líbano.
Os libaneses que tinham ido
tentar a vida no Brasil começaram a voltar para seu país, levando consigo suas
famílias brasileiras, que por sua vez foram levando os amigos. O resultado é uma
simbiose de culturas: nas conversas, fala-se um português salpicado de palavras
em árabe; nas mesas, receitas brasileiras dividem espaço com iguarias locais;
nos aparelhos de som, sertanejos e lambada alternam-se com cantores
libaneses.
![]() Meninos jogam taco em Lucy, um vilarejo no Líbano onde os laços com o Brasil estão em toda parte |
Café e visitas
A paulista Márcia Taha, de
28 anos, está há dois anos em Lucy. Filha caçula entre oito irmãos e muito
apegada à mãe, ela nunca havia pensado em mudar-se para a terra do marido.
Quando Hamze tocava no assunto, respondia: "Nem pensar".
Até o dia em que
ele teve que voltar, para assumir os negócios do pai no Líbano. "Fizemos um
trato: eu iria desde que pudesse visitar o Brasil a cada dois anos",
conta.
Márcia tinha medo do que encontraria pela frente. Tinha impressões
negativas sobre seu novo país. "Minha família foi totalmente contra. Eles me
perguntavam o que eu tinha na cabeça para ir morar em um país de guerra e criar
meus filhos onde não conhecia ninguém."
Preocupações que o tempo se
encarregou de dissipar. A guerra civil libanesa acabou faz tempo e, aliás, nunca
chegou a Lucy. Quanto a não conhecer ninguém, bem... "Eu me assustei nos
primeiros dias: era um tal de entra-e-sai de gente o dia todo, minha casa ficou
uma loucura! Tá vendo esse café aqui? [aponta para a xícara do forte café árabe,
que é servido sem ser coado]. Eu tomava dez desses por dia! Bastava eu sair no
quintal que a vizinha já gritava 'vem tomar café!', e aí ela chamava outra
amiga, e mais outra, e o povo ia chegando de novo."
![]() A paulista Márcia Taha nunca se sente só: sua casa é um entra-e-sai de gente |
Uma de suas primeiras lições sobre as regras de
hospitalidade libanesa: ao receber visitas (imprevistas), ofereça café,
docinhos, e depois retribua com outra visita.
Foi difícil a família se
acostumar. Quando moravam em Ubatuba, no litoral paulista, Márcia e Hamze tinham
uma rotina organizada e todos os encontros com os amigos eram previamente
combinados. Mas em Lucy as coisas acontecem de repente. "Às vezes eu estava
acordando e lavando o rosto e já tinha gente batendo à minha porta. Isso me
incomodava bastante. Eu achava que tirava a minha privacidade", diz
Márcia.
"Algumas horas eu pensava: 'não quero tomar café, quero fazer
sopinha para o meu filho!'." Mas eu tinha que sentar, conversar... não podia
fazer nada, senão passaria por esnobe. Meu marido dizia que era só porque
tínhamos acabado de chegar, mas até hoje é assim. Só que agora eu já tenho
intimidade para não aceitar os convites e impor os meus horários."
O
dia do fico
Manter a agenda social em dia nunca foi problema para Sálua
Barakat, que diz ter se adaptado naturalmente ao ritmo de Lucy. "Eu adoro a
informalidade daqui. As pessoas são próximas, vão chegando, se aglomerando, e
isso faz com que a gente goste da cidade", diz. Filha de libaneses nascida em
Santo André, formada em turismo, solteira, ela decidiu aos 30 anos mudar para
Lucy. Quando criança, já tinha visitado a cidade, em férias com os pais. Mas,
como Márcia, nunca tinha pensado em deixar o Brasil. "Vim com meus primos passar
40 dias. Todos foram embora e eu não quis. Fui ficando, ficando... Estou aqui há
um ano, e feliz da vida", conta.
O que mais influenciou Sálua a ficar foi um fator
citado por todos: a segurança. Por ser uma comunidade pequena onde todas as
caras são conhecidas, dificilmente um estranho entra na cidade sem ser
percebido, o que limita a ação de ladrões. Assim, Lucy gaba-se de não conhecer a
violência, num país estigmatizado por guerras e terrorismo. Seus moradores
contam nos dedos as vezes em que a polícia colocou os pés na
cidade.
Apesar de as casas serem muradas -alguns arriscam que é herança
do Brasil-, não há perigo de assaltos. Os carros ficam com as janelas abertas e
a chave no contato. Para os moradores (quase todos vítimas de assaltos nas
capitais brasileiras), essa liberdade é o céu. "Aqui eu me sinto no Brasil, com
a diferença de que tenho uma vida segura", resume Sálua.
A independência
econômica é outro ponto forte da cidade. A construção da rede de esgoto, da
mesquita e a pavimentação da única estrada que une Lucy ao resto do país foram
realizadas com o dinheiro dos moradores, sem ajuda do governo. Privilegiada por
estar sobre terras ricas em água, algo raro no Oriente Médio, Lucy mantém poços
artesianos particulares em cada casa e ainda distribui água para outras 30 vilas
da região.
Concurso de mansões
Encravada numa zona rural a duas horas de carro da capital,
Beirute, Lucy é uma cidade simples, sem cinema, restaurante e nem mesmo um
grande centro comercial. Suas casas, porém, ostentam progresso.
Espaço
não falta para que as famílias coloquem em prática seus sonhos arquitetônicos. E
como numa competição muda, as casas de pedra em tom areia tentam se superar nos
quesitos exuberância e tamanho. Uma das maiores é a mansão que os habitantes de
Lucy apelidaram de "White House": tem três cozinhas e um jardim com mais de 100
espécies de plantas.
Outro casarão é o de Sausan Dargham: quatro salas de
visita, uma de jantar, uma de jogos, duas de TV, uma para a reza, quatro suítes,
hall, cozinha, miniquadra, churrasqueira e fonte, numa área de cinco mil metros
quadrados.
![]() A libanesa Sausan Dargham (com o filho e sobrinhos) é dona de uma das mansões de Lucy: o pé-de-meia foi feito no Brasil |
Sausan, de 36 anos, nasceu e se casou em Lucy, com um
libanês que havia imigrado para o Brasil aos 13 anos, seguindo tios e primos. O
casal começou a vida em Santos, no litoral paulista. Foram 12 anos na cidade,
onde o marido de Sausan trabalhou com vestuário e móveis, ramos que concentram a
maior parte dos libaneses no Brasil. A família vivia em um apartamento pequeno,
num bairro classe média.
"O Brasil é um país muito bom, onde você se
entrega ao trabalho e recebe retorno", diz Sausan, que não trabalha fora e passa
o dia em função da casa dos sonhos. Foi com o pé-de-meia feito do outro lado do
Atlântico que eles puderam retornar ao Líbano e construir o casarão, que
consumiu sete anos para ficar pronto. "Se não fosse o Brasil, não haveria tudo
isso", admite.
O Brasil teve papel importante no desenvolvimento da
cidade. Foi de Lucy e de suas cercanias que saíram, nos anos 50, as primeiras
levas de imigrantes libaneses em busca das promissoras terras brasileiras.
Quando voltaram, décadas depois, eram empresários de sucesso e chefes de
famílias brasileiras.
"Em algumas cidades vizinhas já nos
cumprimentam com 'bom dia'", conta a advogada de Guarulhos Khadije Arabi, de 41
anos, há sete no Líbano. Ela gostaria de voltar a trabalhar, mas Lucy quase não
oferece postos de trabalho. A maioria dos moradores está empregada nas cidades
vizinhas, maiores, onde só falar português não basta. "Nem me atrevo a procurar
emprego sem antes melhorar o meu árabe, o que é difícil aqui", ela diz. "Quem
quiser aprender árabe, que não venha a Lucy", aconselha.
Enquanto ela
fala, Telma Orra, de 43 anos, tira da mesa as travessas do almoço e coloca água
para ferver. "Você bebe café ou chimarrão?", pergunta à Khadije. "Viu só? Não
tem como sentir saudade do Brasil!", brinca a amiga, que aceita os dois. O
almoço reúne as singularidades de Lucy: arroz, feijão, farofa e quibe ao
iogurte, uma especialidade libanesa. "Eu faço comida brasileira todos os dias.
Quando preparo algo árabe, tem sempre arroz, uma salada ou uma massa para
acompanhar", diz Telma. Ou couve e brócolis, que ela colhe direto da horta - as
sementes são passadas de vizinha à vizinha, constantemente abastecidas por
visitantes do Brasil.
Telma chegou ao Líbano em 1990, acompanhando o
marido, Mohammed. O casal montou uma loja de roupas importadas e viajava duas
vezes por ano ao Brasil para abastecer o estoque. Em 97, porém, a loja acabou
sendo fechada porque estava dando prejuízo. Hoje a família vive de aluguéis de
carro e Telma não trabalha mais. Como adora cozinhar, é na sua cozinha que
acontece a maior parte dos encontros com as amigas.
"O povo vem direto
aqui. Acho que é para ficar perto do cafezinho e das bolachas", acredita. Ela
mostra o coador de café, os temperos Maggi, um pote de plástico fixado na parede
onde se lê "sal". "Ah, eu trouxe tudo mesmo! Os armários embutidos vieram da
minha casa antiga, os pratos, as baixelas...", enumera, empolgada.
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| Khadije Arabi toma chimarrão, mas Ghada Alwan prefere fumar narguilé | |
De véu e grinalda
Como não há opção de entretenimento na cidade, as pessoas
costumam se juntar para passar o tempo. Os finais de tarde são animados: há
sempre reunião na casa de alguém para jogar cartas, ouvir música, dançar e
conversar. O programa que atrai mais adeptos é a partida de tranca, regada ao
narguilé.
Uma das mais populares tradições do Oriente Médio, o narguilé é
uma espécie de cachimbo de água. O fumo forte, que não costuma ser tragado e tem
aroma de menta ou maçã, é passado adiante como um chimarrão e até os
adolescentes participam do ritual.
As ambições dos jovens de Lucy
dividem-se no período da faculdade. Os rapazes viajam para estudar ou trabalhar
em grandes centros; as meninas ficam e casam cedo, com os moços que retornam.
"Em Lucy não tem isso de namoro. Se você gosta de alguém, já fica noiva. Daí é
que o rapaz começa a freqüentar a sua casa e um conhece o outro", explica Nasmie
Orra, 21 anos, filha mais nova de Telma. "Se uma garota conversa por muito tempo
com um rapaz, o povo já fala 'ah, tá comprometida'", continua.
Embora a
Lucy de hoje há muito tenha abandonado a prática do casamento arranjado, quando
os pais escolhiam com quem e quando seus filhos se casariam, ainda existem
certas imposições sociais. "Para casar, precisa da aprovação dos pais. E eles
preferem que seja com alguém daqui, porque conhecem a família e têm certeza de
que a filha estará em boas mãos", explica sua irmã, Leila, de 22
anos.
Sálua Barakat sabe bem até que ponto essa preocupação dos pais pode
chegar. "Uma vez apareceu um casal de senhores na minha casa. Eles haviam
escutado a meu respeito e vieram propor que eu conhecesse a família de um rapaz
interessado em casar. Fiquei revoltada: 'o que é isso, acham que sou objeto?'
Mas meu pai disse: 'filha, é assim que as pessoas se conhecem no Líbano'."
Eloqüente, Sálua solta farpas quando o assunto vem à tona. "Deixei claro: não
quero que fiquem batendo à minha porta para apresentar homem para eu casar.
Agora, ninguém mais se atreve a fazer isso", diz.
As irmãs Nasmie e Leila
também acreditam que não sofrerão interferências nas suas escolhas. "É um
privilégio ter pais que viveram no Brasil porque têm a mente mais aberta. A
gente vê a diferença entre os que moraram fora e os que nunca saíram daqui. O
fluxo de brasileiros ajudou a cidade a se modernizar nesse sentido", diz
Leila.
Nem todos os costumes muçulmanos, porém, podem ser driblados com
um jeitinho brasileiro. Quando mudaram para Lucy, Nasmie e Leila deixaram fora
da mala as regatas e os shorts. Sabiam que morar em uma cidade muçulmana
implicava discrição nas roupas femininas. No início, morreram de calor. Depois,
aprenderam a compor um guarda-roupa leve, sem ser ousado. Usar véu e roupas
compridas não é uma obrigação religiosa no Líbano e cada mulher decide se quer
cobrir-se.
Muçulmanas como Sálua, Márcia e Sausan usam batom, esmalte e
cabelo solto. O que importa é ter o "coração limpo", defendem. Já a advogada
Khadije decidiu-se pelo véu, como reverência à religião. "Nem pedi a opinião do
meu marido, eu me senti bem em fazer isso", diz.
O véu não é um problema
para as mulheres em Lucy. Há algumas leis islâmicas, porém, que podem se tornar
um dilema. Em caso de divórcio, por exemplo, a mãe só fica com a guarda dos
filhos até que os meninos completem 7 anos e as meninas, 9. Daí a guarda passa
para o pai. Mas a diferença entre a lei brasileira e a libanesa não parece
preocupar as mulheres de lá. Em geral elas nem pensam em se divorciar e fazem do
casamento, dos filhos (média de cinco por casal) e da casa, sua
vida.
Esses são os sonhos de Ghada, a libanesa que aprendeu português
para sobreviver em Lucy. Ela está de mudança para os Estados Unidos, onde viverá
com o futuro marido. Feliz da vida, planeja a primeira viagem do casal: o
Brasil. "Quero ver o Cristo Redentor", diz. E promete que fará o marido
falar português.
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